quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A AGONIA DA FLORESTA AMAZÔNICA

- Um grito pela liberdade, neste 7 de Setembro -

Sérgio Aparecido Dias

A estrada rasga a floresta e abre um imenso e interminável sulco negro por entre o verde das matas outrora virgens. O ronco apavorante dos tratores troveja na imensidão da selva amazônica, assustando os animais selvagens e espantando os pássaros e as aves, que demandam o azul do céu, em ruidosos bandos, em intensas revoadas. Por sobre as copas das árvores, nas mais altas galhadas, os guaribas olham assustados os estranhos monstros, avançando em sua ânsia destruidora. Esses grandes macacos das terras firmes, os bugios da Amazônia, lançam o seu protesto em forma de tonitruantes rugidos, que se sobrepõem ao som dos imensos bichos de aço. E as árvores centenárias vão tombando, uma após outra, gemendo em seus últimos estalidos, lançando seus galhos como que num último pedido de socorro, tentando se agarrar às suas companheiras que ainda estão de pé. Mas estas também são violentamente levantadas de suas raízes, choram as últimas lágrimas de sua seiva e tombam inertes, com estrepitoso estrondo, no solo que as vira germinar e florescer. Imensos caminhões vão e vêm pelo trecho recém aberto, transportando terra e materiais utilizados pelos trabalhadores dos canteiros das obras. Grupos de operadores de motoserras e auxiliares de derrubadas, executam os serviços de corte dos galhos e das toras das árvores caídas, que serão depois selecionadas para o consumo. As que forem madeira de lei serão negociadas com as madeireiras e serrarias, ao passo que as demais servirão para estacas, barrotes, mourões e postes. O que sobrar, alimentará as fornalhas das padarias das cidades ou será transformado em carvão. O restante, o que não for utilizado, apodrecerá e será reabsorvido pelo solo, em 5, 10 ou 20 anos em média. Nas laterais do asfalto, que ocupará o lugar onde antes elas existiram, outras sementes germinarão e outras árvores crescerão, alimentadas com o húmus destas que agora agonizam e morrem. No ciclo regenerador da Natureza, de certo modo elas renascerão novamente, mas muitos de seus destruidores não mais pertencerão a este mundo. E quando as aves retornarem e fizerem os seus ninhos nos galhos renovados, os tratores e caminhões já serão sucata mecânica, corroídos pela ferrugem e abandonados na beira da estrada, encobertos pelos arbustos e pelas moitas de capim.

E a selva agoniza. Uma mistura de cheiros invade o ar nesse cenário de destruição, entrando pelas narinas e sobrepondo-se ao forte odor de óleo diesel e fumaça. Resinas aromáticas do pau-rosa, agradavelmente perfumadas, juntam-se aos frutos esmagados da andiroba, do marí-marí e do taperebá, produzindo um penetrante odor acre, que se mistura ao cheiro da terra úmida revolvida e das raízes destroçadas. É o cheiro da morte. É uma parte da floresta morrendo, violentada pelos seres ditos superiores, que lhes roubam o sagrado direito de produzirem frutos comestíveis, sombra benfazeja e restauradora, além do remédio de suas folhas, cascas e raízes, que poderiam curar os males da humanidade. Todo esse tesouro doado por Deus, será agora transformado em tábuas, carvão e adubo. Um mal necessário, segundo os comentaristas, para conquistar a Amazônia e ocupá-la estrategicamente, protegendo as fronteiras e levando o progresso às vilas e cidades às margens dos rios. Só o tempo dirá se terá valido a pena tanto estrago e tanta agressão ao meio ambiente e à Natureza. De vez em quando os tratores e as pás mecânicas encontram uma barreira que os obriga a parar, chiando os pneus, trepidando suas carcaças e resfolegando fumaça preta pelos narizes dos escapamentos. É um rio, das centenas de milhares que serpenteiam pelas florestas da Amazônia. Uns grandes, outros enormes e vários gigantescos. Desde igarapés e riozinhos até aos caudalosos gigantes líquidos, tributários do Amazonas, o rio-mar, um infindável emaranhado de águas, ziguezagueando por entre a selva, como artérias vivas, o sistema circulatório da vida selvagem. Mas a selva tem os seus métodos de revide e proteção. A Natureza dispõe de meios de defesa, contra os quais nem sempre os seres humanos conseguem êxito. Alguém já ouviu falar da Transamazônica? Existem, por acaso, modernos ônibus trafegando por suas estradas asfaltadas? Quantas cidades surgiram em suas margens? De quais fazendas prósperas estão sendo colhidos os alimentos que matariam a fome da humanidade, de acordo com a propaganda da época? A maior parte da Transamazônica é agora vereda das antas e dos grandes animais da floresta. O que restou dos acampamentos virou comida de cupins, esconderijo dos grandes morcegos e morada de cobras, tarântulas e aranhas caranguejeiras. E o forte sol do verão amazônico reflete seus raios no que sobrou das carcaças dos tratores e das caçambas, desmanteladas e desfeitas pela ferrugem, cobertas pelas ramagens de buxa, maracujá do mato e melão de São Caetano. Dezenas de cruzes, toscas e rústicas, assinalam os locais dos que sucumbiram na batalha e estão espalhadas no interior da floresta, nas beiras dos rios e ao longo do que seria a estrada. Foram vencidos pela malária, pelas pestilências tropicais, pelas areias movediças, pelos desastres na estrada. Ou se acabaram nos dentes dos jacarés, das piranhas e das onças. Sem falar dos que receberam a injeção mortal dos dentes venenosíssimos da surucucu-pico-de-jaca. E a Transamazônica transformou-se numa grande capoeira, a maior de todas. E numa grande piada internacional, sem a menor graça! Agora, nos estertores do século 20 e no adentrar do século 21, as derrubadas se intensificam e as queimadas acompanham esse alucinante ritmo de destruição. Fazendeiros, grileiros e posseiros, acobertados por políticos gananciosos, levantando falsas bandeiras socialistas e de pseudas reformas agrárias, agridem e violentam impunemente o meio ambiente. Sentem-se fortes, amparados em leis absurdas, moralmente anuladas por seu conteúdo arbitrário e destruidor. Legais na frieza constitucional, porém, ilegais em seu ardente propósito depredador Somos testemunhas, cujas vozes são abafadas pelos discursos inflamados dos que se acham donos da Amazônia, que sonham reparti-la com abutres esfaimados de nações destruidoras, cujas florestas não mais existem, cujos recursos naturais já se exauriram. Esses piratas da nossa bio-diversidade se acham no direito de ratear a Amazônia como pagamento da dívida externa. Será que já não bastam os incentivos fiscais, correspondentes a milhões de dólares, que há décadas eles sugam da Zona Franca ? Milhares de trabalhadores são despejados todos os anos nas ruas de Manaus, perambulando pelos escritórios de recursos humanos e engrossando as intermináveis filas do F.G.T.S. da Caixa Econômica e do seguro desemprego. Tudo para evitar que as empresas subsidiadas diminuam o seu exorbitante lucro. E se isto não basta, então a selva deve ser destruída, para dar espaço às grandes fazendas. Tudo de modo desordenado, sem respeitar o meio ambiente e o ecossistema. Daqui a 100 anos, a julgar pelo avanço da destruição, amparada e embasada por uma lei estúpida e imbecil, que permite a derrubada de 50% da área (e já prevendo uma futura permissão de 80%), provavelmente o rio Amazonas e o rio Negro serão esgoto a céu aberto, como já sucedeu com literalmente todos os igarapés de Manaus. Os esgotos das fábricas serão despejados livremente no rio Negro, que compartilhará do triste destino do grande rio Tietê de águas mortas, repositório de imundícies domésticas e de lixo tóxico industrial. No lugar das garças, esqueléticos e famintos urubus disputarão, com os mendigos, restos de comida nos lixões, ao longo dos canais de águas fétidas e poluídas. No lugar da exuberante floresta, se erguerão condomínios e grandes complexos de favelas, cercados por um deserto de areias causticantes. Eu só espero estar morto muitos anos antes que esta tragédia inevitável aconteça.


F I M


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